
Laíla, o cara que reinventou o conceito de comunidade.
Por crer no desfile de escola de samba como um espetáculo comunitário decidi partilhar nesta tela de luz as experiencias e reflexões que despertaram em mim o conceito carnavalesco de comunidade.
Comunidade... Esta palavrinha tão em voga em nossos dias, e que de tanto ser usada, corre risco de se tornar banal como aconteceu com o natal, a solidariedade e o amor...
O grande perigo de uma palavra é tornar-se vazia de significado, e isto paradoxalmente acontece quando ela passa a ter múltiplos sentidos.
De repente comunidade virou a palavra da moda, do politicamente correto, das discussões acadêmicas, das construções ideológicas, enfim virou uma especie de abracadabra àqueles que desejam ser contemporâneos, mas que não estão nem aí pra realidade...
No mundo do samba, reflexo do mundo real, a palavra possui igualmente inúmeros significados.
Tem gente que conceitua comunidade como aquela turma de pobres que tem o “direito” de receber uma fantasia “de grátis” por possuir o “mérito” da pobreza.
Este conceito de comunidade nada mais é do que a carnavalização do bolsa família.
É o velho e destrutivo paternalismo que insiste em dizer que os pobres são bem aventurados e por este motivo merecem caridade.
Assim estes tais pobres não constroem nenhum outro vinculo com a agremiação se não uma relação de dependência que algum acadêmico católico resolveu chamar de amor.
Nossa como os pobres amam...
Mas assim como fazem nas Igrejas aparecendo só para receber as cestas de natal, nossa comunidade só aparece em janeiro para garantir que seu nome vai pra lista da ala da comunidade.
Outros tem um conceito um pouco mais exigente. Comunidade é aquele povo pobre que frequenta a quadra, pede emprego no barracão, faz os serviços mais humildes e por isto merece ganhar uma fantasia.
É o neoservilismo. Não exergo o outro como pessoa, mas como alguém inferior a quem ofereço a minha compaixão. Este conceito de comunidade é ainda mais cruel porque não permite que o outro – pessoa – tenha vontades ou iniciativas que não estejam diretamente submetidas a minhas. Sua individualidade é submissa a minha opinião e se ele discorda de mim está fora, é um pobre metido a besta.
A palavra comunidade também é usada quando há luta de forças no seio da agremiação. De repente a comunidade se torna uma versão tupiniquim e carnavalizada dos destruidores da Bastilha, mas na verdade são apenas os “malacos” servindo de massa de manobra para que alguém tome o poder...Depois das cabeças degoladas “os grandes baluartes da malandragem” voltam à condição de foliões esporádicos, felizes porque daquele momento em diante receberão fantasias de graça.
Diante destes três conceitos de comunidade lembro do trabalho realizado pelo Mestre Laíla na Beija-flor de Nilópolis.
Em 1997 Laíla, com o incentivo do Seo Anísio, iniciou uma verdadeira revolução no conceito de comunidade. Primeiro criou a comissão de carnaval, desmistificando a figura do carnavalesco.
Por generosidade do destino fiz parte da primeira composição da comissão e vi de perto a construção de uma comunidade carnavalesca.
Laíla não distribuiu fantasias pura e simplesmente. Nem criou departimentos de pequenos serviços na quadra. Nem o vi fazer discursos sobre a pobreza.
Laíla reinventou as relações entre os sambistas.
Primeiro criou os lideres da comunidade. Estes estariam a frente de grupos de cinquenta pessoas. Obrigações? Saber o nome e a história de cada um dos membros de seu grupo e incentivar a participação efetiva.
E assim o obvio provocou uma mudança fundamental.
A quadra transformou-se em um ponto de encontro e para que as relações se estreitassem Laíla ia criando situações de aproximação.
Todos os aniversariantes eram lembrados, namoros aconteceram, alguem arrumava um emprego para quem estava precisando, o enredo foi apresentado pela comunidade, enfim as pessoas estavam unidas pela Beija-Flor de Nilópolis.
Os líderes comunitários passaram a participar das reuniões dos chefes de alas, as senhoras passavam a frequentar as reuniões da ala das baianas, as mulheres mais bonitas se candidatavam a um local nas alegorias.
O mais importante porém e que Laíla fez com que as pessoas descobrissem seu potencial. Nada foi distribuído ou trocado...A comunidade foi conquistando o seu espaço.
O ápice desta conquista foi quando a comunidade votou na escolha do samba enredo.
Lembro como aqueles dias foram encantadores...
O resultado se viu na avenida. Desde então a Beija-flor recuperou o status de maior escola de samba e desta vez não foi apenas o luxo mas a comunidade...
Mas lembrei deste estória histórica só pra perguntar: Qual é o seu conceito de comunidade?

Caro Paulo,
ResponderExcluircreio que o quadro que você desenha no inicio do seu texto mostra bem o que se entende por comunidade nos dias de hoje: pessoas que assinam papéis na entrada dos ensaios de quadra, ou então nos ensaios técnicos, obrigadas a decorar o samba da agremiação, em troca de fantasias, muitas vezes as mais desconfortáveis ou mais baratas no conjunto geral de fantasias da escola. Foi uma forma encontrada de barrar os mascadores de chiclete e ganhar alguns décimos em harmonia... No entanto, não existe uma comunidade de fato. Me arrisco a dizer que nem 5% das pessoas que se dizem de uma determinada comunidade conhecem efetivamente mais de 3 pessoas da mesma comunidade! Interessante porém é atentar para o fato de que questões extra escola fazem com que a Beija-Flor seja o modelo de comunidade ideal. Para muitos ali, a realidade (ou fantasia) da escola é uma das razões de viver daquela população. A atuação social da escola é maior e mais efetiva que a do próprio poder público de Nilópolis. Sendo assim, creio que a própria dinâmica social permite que se criem laços muito fortes entre os componentes da escola e a escola em si. Possivelmente o modelo nilopolitano seja o modelo de comunidade por excelência, mas infelizmente se mostra como um modelo restrito ao ambito da baixada, sem força pra se irradiar pras demais agremiações em virtude do sistema que rege as escolas de samba atualmente. Infelizmente, hoje em dia não se precisa de comunidade de fato para se fazer carnaval pra ganhar títulos. E isso já não é novidade para ninguém...
Grande abraço e bela iniciativa do blog!
Richard
O grande exemplo de comunidade foi a valorização do Negro dentro da escola, foi e continua sendo o trabalho de mostrar a eles que o negro também tem valor, assim é a Beija-flor uma escola 90% negra, isso é o maior orgulho de ser comunidade.
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